"If I could only stop my head from going into constant infection, then maybe I could swim back to my own version of consistent sanity."

Serj Tankian


Sunday, April 01, 2007
Diário de bordo

O som dos carris carrega consigo uma estranha sensação de intimidade. Marca de viagens partilhadas, ao encontro do amor. Pela janela, o rio. Sereno. Confidente de sempre. Abraçado pela paisagem acolhedora de vastos campos virgens do toque urbano. Lá fora, o céu pintado em tons de cinza, triste como a despedida de há instantes. Selada com um beijo teu que me agarra sempre até ao momento do nosso reencontro. Serão segundos, minutos, horas, dias. Até ao próximo abraço. O comboio leva-me para longe de ti, mas o meu coração fica sempre contigo. Terras diferentes. Rostos que mudam. Velhos e novos. Pretos e brancos. Todos de mala às costas. Todos diferentes de mim e de ti. Mas também eles deixam algo ou alguem para trás. E por muito breve que seja a despedida, a mim parece-me sempre o fim do mundo. Porque o meu mundo é feito de ti. Os meus dias crescem na certeza de te ter e estar contigo. E a tua presença traz um novo brilho e uma nova cor a tudo. Como os terrenos verdes e doirados que dançam à vez na minha janela. A sua cor é maior e o seu brilho é maior à beira-rio. Porque estão perto dele. Preenchem-se.

Lá fora o ritmo é diferente. A vida corre. Sem pressa de chegar a lado nenhum. Cá dentro tudo é feito de sonho. Misturamos os dois e o resultado é uma explosão de cores. Flutuamos. E podemos tocar as nuvens. Arrancar um pedaço e devorá-lo. E flutuar ainda mais. Saltitar até às estrelas e agarrar uma delas. Pintar o céu da cor que queremos. E não são os sonhos que alimentam essa mesma vida? Apetece fechar os olhos e adormecer. Se o fizer, acho que o comboio sai dos carris rumo às nuvens. E deixo de atravessar as terras que banham o Tejo para atravessar mundos. E em todos eles espreito a janela, sempre à espera de te ver do lado de fora, acenando-me. E consigo ler-te nos lábios "amo-te". No meu sonho, quanto mais o comboio anda e quantas mais estações passam, mais perto estou de ti. O destino és tu. Sim, sei que estou a sonhar. E quando acordar vou estar em Santa Apolónia, de volta ao real. Resta-me rumar a casa e aguardar pacientemente. Pela próxima viagem. De regresso ao Tejo e às suas coloridas margens. De regresso a ti.

Posted at 01:17 by Ishkur
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Monday, March 12, 2007
alternative ending

Ela sentou-se, confortavelmente instalada em frente ao ecrã. O genérico rodou e ela embrenhou-se na história. O personagem era a criatura mais bela que alguma vez vira. Tinha a ver com os seus olhos. Aquele olhar penetrante. Hipnotizante com toda a sua melancolia. Capaz de nos perdermos nele, imersos na sedução quase perversa daquele rosto doce. Tinha o corpo pisado, marcas de combate. Sulcos profundos e fossilizados de tempos duros. Mas tinha as mãos mais suaves. Dedos esguios e de contornos perfeitos. Contrastavam com o corpo seco e robusto. No rosto, o ar jovem mas desgastado de quem luta contra o tempo. Mas tudo isso era parte do seu encanto.

Apaixonou-se. Ainda a história ia a meio e já estava convencida que era ele. Queria-o. Queria cair nos seus braços e adormecer no seu peito. Queria passar as mãos naquela face cansada e olhá-lo nos olhos. Queria perder-se. Nele.



O céu escureceu. E veio a chuva. Lavar-lhe as lágrimas do rosto. Sentia-se mais sozinho que nunca. Queria tanto um abraço. Queria tanto poder sentir aquele calor de que só ouvira falar nos livros. Como na história dela.
Era a criatura mais bela que alguma vez imaginara. Todos os dias lia e relia as páginas que a descreviam. O seu sorriso doce. O seu toque carinhoso. A pele suave. O calor do corpo. A sensualidade de todos os movimentos. Os cabelos longos. O cheiro da sua pele.

Há muito que se apaixonara. Queria-a. Queria abraçá-la com força e adormecê-la no seu peito, bem junto a si. Queria tocar a sua pele e beijar aqueles lábios do rosto mais meigo. Queria perder-se. Nela.



Ela levantou-se e correu para cima do palco. Guiada por sabe-se lá que instinto correu para a tela. E mergulhou... A queda pareceu não terminar nunca. Ele pegou no livro e releu-o de uma ponta à outra. Porém, quando folheou a última página, algo de estranho se deu. E mergulhou...

Abriram os olhos devagarinho. Ela estava deitada no seu peito. Ele tinha os braços à sua volta. Reconheceram-se de imediato. Não foi dita uma única palavra. Beijaram-se.

Ao fundo, o pôr do sol. Rolam os créditos finais.


Posted at 23:24 by Ishkur
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Monday, January 22, 2007
walking after you

Foi como despertar. Transpor a ténue linha que nos divide o mundo em dois: realidade e sonho. Abrir lentamente os olhos e por entre a névoa ver, ao longe, de novo os raios de Sol. E deixar que o calor penetre o coração. Ultrapasse as camadas de humanidade. Deixar o esqueleto para trás e ascender a um outro plano. Encontrar aí o fôlego que faltava.
O mundo não é feito de sonhos, mas são eles que o sustentam. Respirar é preciso. O tempo pisa-nos os calcanhares e obriga-nos a correr. Mas em algum momento temos de parar. E aí?
A mesma matéria que nos forma é aquela que nos destrói. Que nos consome até ao âmago do nosso ser. E quando a demência claustrofóbica nos encosta à parede… Há aqueles que fecham os olhos e aceitam o fim. Mas outros há que não pestanejam. E com um cerrar de punho dizem basta.

O essencial encontra-se num beijo. Num abraço quente. Num olhar confortante num dia mau.

De cada vez que me sussurras ao ouvido as maneiras como me amas encontro a paz que tanto procuro. E cresce em mim a convicção de seguir a teu lado na minha busca. Porque sou um louco. Despertas em mim o que me resta de sanidade. A minha força vem da tua.

Não se trata de mim. Não se trata de ti. Trata-se de nós.



Posted at 01:42 by Ishkur
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Sunday, September 24, 2006
do sangue e do amor...

Dei por mim a cair. Desamparado. Senti o atrito cortante enquanto o chão me fugia sob os pés. O impacto foi seco. E o gemido de dor abafado. Cravei as unhas bem fundo na terra. Ou seria na carne? Fechei os olhos com a pancada, num reflexo medido. E quando os reabri doía-me a cabeça. Ou seria a alma? Enquanto cuspia o sangue misturado com a baba e as lágrimas cobardes, gritava  desabafos flamejantes de raiva e dor. De frustração e mágoa.

Engulo em seco. Mais uma estocada aqui e ali. E enquanto desferes cada golpe, sinto o sangue fervilhar. Não consigo desviar-me. Tento defender-me mas os esforços são em vão. É um duelo perdido à partida. Não estava já condenado, assim que disseste a primeira palavra?

As nódoas negras não são nada. Até porque tu não as vês. Nunca viste. E o meu silêncio não é vingança. É dor. Incapaz de te magoar da mesma maneira, teimo em deixar andar e esperar que o tempo cure. Que o vento leve o que resta. Despojos de guerra. Batalhas sempre iguais. Iguais a mim e a ti. Ou seremos nós, no fundo, mais parecidos do que julgas?

Nos dias mais cinzentos consigo ouvir o mundo lá fora chorar comigo. Um imenso sussurro. Que chega aos ouvidos de todos. E assim todos estão comigo. Mesmo quando estou só. E pensar que todo este tempo bastavas tu. Mas sempre te custou estar. Talvez te lembre das tuas próprias dores. Da tua raiva. E com isso não aceites o meu ser e o meu estar. Talvez esteja só a imaginar coisas.

Um reflexo tremido na água. Irreconhecível. Mas o rosto é o mesmo.

Ontem fomos eu e tu.
A imagem desvanece.

Hoje sou eu.
O mesmo olhar familiar.

O mesmo desejo inabalável. A mesma força indomável. A mesma vontade de não ceder. A mesma garra. A mesma raiva tornada combustível. Dêem-me asas e eu vôo.

Somos mais parecidos do que julgas. Corres-me no sangue. Ironia?
E encontro sempre forma de te perdoar. E o tempo há-de passar. E o sangue há-de correr. E o sol há-de nascer.


Posted at 23:49 by Ishkur
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Thursday, September 07, 2006
Renascer ao virar da esquina...

Naquele dia tudo lhe parecia diferente. O sol parecia diferente. As àrvores pareciam diferentes. As pessoas pareciam diferentes. O mundo parecia diferente. Era como se tivesse aberto uma porta para algo novo.
Sentia-se mais leve. Inclusivé, com cada passada, parecia flutuar em vez de caminhar. Os seus movimentos já não eram arrastados. Soltara-se enfim dessas correntes que o aprisionavam. Que o prendiam ao mundo terreno, ao óbvio e ao constante. Ao indiferente.
Agora a vida apresentava-se-lhe sob um plano diferente. Numa perspectiva tão clara que lhe fazia confusão como não dera por aquilo antes. Tudo lhe parecia menos sinistro. As pessoas. As ruas. A cidade. Era tudo novo. As cores. Os cheiros. Os sabores.
Deixou que tudo isto o deslumbrasse. Absorveu quanto conseguia. Sempre sedento de mais. Afinal não é todos os dias que se nasce mais uma vez. Que se encontra aquilo que mais queremos, mesmo sem saber que o procuramos.
No fundo não é nenhum mistério. Nem tem muito que saber. Tendemos é a perder-nos no caminho. A bater às portas erradas. Ou a divagar um pouco aqui e ali.
Fechou enfim a porta de casa. Guardou as chaves no bolso. Inspirou longamente. Tinha um brilho nos olhos. E o esboço de um sorriso a qualquer momento. Afinal não era o mundo que estava diferente. Aquela rua era a mesma. As pessoas eram as mesmas. Até o sol ardia com a mesma intensidade de todos os dias. Era ele quem mudara. E tudo tinha uma aura e uma beleza quase poéticas. Como versos do mais perfeito dos poemas. Todas as coisas faziam sentido. E ele já não se sentia perdido. Porque naquele dia, e desde aquele dia, ele é um homem apaixonado.



Posted at 23:52 by Ishkur
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Monday, August 28, 2006
Ode ao mar

Senti o vento quente beijar-me o rosto. Pisei a areia molhada. Mergulhei os pés na água fria e senti um leve arrepio. Abri o peito e a plenos pulmões inspirei toda essa vida. E ouvi o deslizar das ondas quebrar o silêncio presente. Num sussurro apaziguante. Que lava a alma. As ideias pesavam-me. Emaranhadas na saudade. E as lágrimas ameaçavam vir. E o nó na garganta...

Não sei se foi solidão. Não sei se foi raiva. Não sei se foi fraqueza. Não sei se foi desespero.

O jogo de cores no céu. E a cabeça às voltas. O cheiro do mar. O sal no corpo molhado. Aliviei o peso. E soube naquele instante a força desse sentimento que vive e vive mais a cada dia que passa. Rebelde. Imune. E pude respirar de novo. O nó desaparecera. O resto desaparecerá com o teu toque. Num abraço que valerá por mil. E tudo não será mais que fumo...








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Tuesday, July 11, 2006
Sóbrio

Procurei um pouco mais. Nos intervalos da respiração ofegante. Tacteando os corpos suados. Deslizei a ponta dos polegares. Inalei toda a paixão intoxicante que flutuava no ar. Como bolhas de sabão. Fechei os olhos incrédulo. E ao abri-los de novo, chorei para me negar. Gritei com todas as forças! Mas da minha boca só saíam acordes melodiosos de guitarra chorona. Inflamou-se-me o peito. Com chamas do tamanho de ondas. Caí redondo no chão. Nú. Indefeso e crú. Rendido à dor desse amor.

As núvens adensaram-se, pintando o céu em tons de melancolia. Os pássaros bateram asas e fugiram todos. Choveu. As ruas encheram-se de vazio. E o vento trazia consigo um estranho gemido. Terrivelmente confortante. Parecia dizer que o mundo não ia acabar. Era só mais um começo. De algo maravilhoso e nunca antes contado. Nem nas fábulas mais antigas, nem nos poemas dos que têm o dom da palavra.

E do abismo veio a luz. O sol espreitou por entre a tela soturna e mostrou-se mais radiante que nunca. O céu vestiu-se com as mais belas cores quentes de fim de tarde. O arrastar dos passos voltou às ruas. Mas o melhor de tudo foi mesmo o calor. Dentro do peito.

Abraçei com todas as forças esse prazer doloroso. Querendo devorar mais e mais. Entregando a alma e todo o corpo. Aos seus desígnios. Chorei. Morri. Nasci. E nunca no mundo houve tamanho prazer. O silêncio quebrou-se enfim. O grito soltou-se enfim. Do mais fundo da garganta. E era o mais belo dos rostos. A mais doce criatura que alguma vez se me cruzara no caminho. Tudo acabou naquele beijo. Eterno. Tudo começou naquele beijo...


Posted at 19:03 by Ishkur
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Sunday, June 18, 2006
Curva


"Curve: The loveliest distance between two points. (Mae West)"
» Foto por J. Davidson «




A luz trémula que flutuava pelo ar delineava as curvas do seu corpo. Esses traços tão bem desenhados que uniam sensualmente todos os centímetros dessa pele apetecível. Pairava por ali um aroma doce. Seria do sexo? Seria do perfume? Só de lhe passar as mãos suavemente pelo corpo arrepiava-me. Começava nos ombros... descia as costas... parava por instantes na cintura... e percorria aquelas coxas divinas até ao fim... Não a queria acordar. Ficava a contemplá-la durante horas. Mergulhada no seu sono tranquilo. E era todo o conforto de que precisava. Senti-la ali a meu lado, sabê-la minha. O cabelo caído cobria-lhe o rosto. As mãos de dedos esguios que apetecia trincar carinhosamente. Todo o seu corpo nú timidamente enrolado num pedaço de lençol. Os espíritos da noite que ali passavam paravam em contemplação. E respirava sobre ela, ao movimento orquestrado dos meus dedos na pele. Ali éramos só nós. E o mundo tornava-se perfeito por momentos. Ninguém a podia levar de mim. Podia fechar os olhos, que de cada vez que os abrisse de novo, a minha visão seria a sua. Podia enfim adormecer. Bastou beijar-lhe o rosto e abraçá-la bem junto a mim. Sentir-me seguro. E sentir aquele calor. Que me aquece corpo e alma.


Posted at 23:13 by Ishkur
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Thursday, June 15, 2006
Cinzento

Foi como vapor. Fechei os olhos e surgiste-me. Tentei agarrar-te. E ao tocar-te os meus dedos mergulharam em ti. Mas faltava o tacto. O cheiro da chuva, lá fora, aguça os sentidos. Rebolo na cama, mordo os lençóis. Danço com a tua imagem na minha cabeça. Mas falta o toque. Um olhar de relance à janela. Cinzento. O ar parece ficar pesado. E as cores díluem-se na sombra que aos poucos se apodera destas quatro paredes. O respirar arrasta-se lentamente. Compassado ao ritmo dessa batida cardíaca. Sinto-me leve. Flutuando entre decibéis de sentimento. E de cada vez que fecho os olhos, sempre a tua imagem...

Define-me a palavra saudade.

Fazes-me falta. Tornei-me dependente do prazer que és toda tu. Tocar-te. Cheirar-te, Olhar-te. Sentir-te... Viver cada um desses sentimentos e misturá-los naquilo que me deixa de rastos. Essa paixão. Quero-te! É esse desejo que me alimenta.

O que é o tempo?

Escrevo e reescrevo os lamentos e os desabafos. Leio e releio as tuas mensagens. Oiço as nossas músicas vezes sem conta. O que é então a saudade? Porquê essa tortura? Porque é que o tempo está sempre contra nós?

Foi como vapor. Fechei os olhos e surgiste-me. Desde então não me desapareceu essa imagem. Que invade cada pensamento. Cada desejo. Mas ainda não te consegui agarrar. Quero a versão real...


Posted at 21:29 by Ishkur
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Monday, June 05, 2006
Noite

A janela aberta deixa entrar apenas a brisa suficiente para espalhar essas folhas soltas. O fogo brando queima os últimos centímetros de pavio nas velas espalhadas. O quarto parece uma divisão soturna, mergulhada num negro melancólico contaminante. A roupa espalhada pelo chão. Os lençóis desalinhados. O súbtil aroma do incenso. A banda sonora dispersando acordes que ressoam nas paredes.

Lá fora a noite cobre as ruas da cidade. Ao virar de cada esquina, sombras esguias de respirar lento e pesado. As luzes confundem-se ao piscar dos olhos. E se esticamos o braço quase tocamos o nada.

As guitarras gemem em desespero e o piano sussurra carícias. O copo vazio ainda cheira a whisky. O ar corre tão lento que até custa respirar. E o passar dos minutos compassado ao bater das teclas. O luar espreitado da janela reflecte apenas um corpo nú. Esta massa de carne e osso. O tronco despido. As mãos de dedos esguios. Os olhos negros perdidos no sorriso sedutor da noite.

Ainda há instantes rebolámos naquela cama, embalados por essa paixão que nos consome. Continuo a não saber lidar com a tua partida. E mergulho nessa saudade que me deixa vazio.
Apanhei uma das folhas do chão. 'Sem ti não sou nada...' O final perfeito. O verso que faltava. Voltei a encher o copo e continuei ali, à janela. Respirando a serenidade dessa noite. Noite dos loucos. Noite dos amantes. Noite.



Posted at 02:27 by Ishkur
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"...Speak the words I wanna hear,
to make my demons run.
The door is locked now,
but it's opened if you're true.
If you can understand the me,
then I can understand the you..."


Metallica - The Unforgiven II











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