Entry: Noite submersa Thursday, March 13, 2008



 
(Luis Royo)



    Naquela noite a lua trazia consigo o prenúncio de algo terrível. O ar estava mais pesado e nele pairava uma estranha neblina. As ruas estavam desertas, como se a aquela hora todas as pessoas se tivessem fechado dentro de casa, com medo do que aí vinha. Não se ouvia nada a não ser os ruídos habituais das horas mais tardias, o miar dos gatos vadios, a lâmpada do poste de electricidade a fundir, o som dos tubos de escape. Miguel vagueava sozinho, de cigarro na boca e mãos nos bolsos. Usava um casaco de cabedal escuro, uns jeans rasgados no joelho e botas da tropa. Mesmo sendo de noite usava óculos de Sol. Se juntarmos a isto o cabelo rapado e os piercings, facilmente se percebe que não era uma figura convidativa a dois dedos de conversa banal. A robustez do seu tronco maciço ajudavam a torná-lo intimidante. Era corpulento mas de movimentos ágeis. Caminhava a passos lentos, olhar fixo no horizonte, sem se distrair com o que o rodeava. O seu rosto era de uma palidez estranha, o que era realçado quando vestia de negro. Entrou numa viela suja, com papéis e lixo espalhado pelo chão. As poças de água porca libertavam um cheiro fétido a podre. Meia dúzia de passos à frente havia um bar. Nada convidativo. Para se entrar era preciso descer um lanço de escadas, o que no contexto daquele cenário fazia parecer que se caminhava para um qualquer fosso nojento. Miguel abriu uma porta de aço pesada e entrou. A atmosfera estava severamente agressiva tais eram as quantidades de fumo. Uma pessoa normal ficaria mal disposta logo aí. Era um antro absoluto. Bêbedos, drogados, chulos, ali havia de tudo. Haviam apenas meia dúzia de mesas, todas ocupadas com garrafas de cerveja vazias e cinzeiros a transbordar. Ao balcão estava sentado um velho gordo de barbas amarelas e sem metade dos dentes. À frente tinha uma garrafa de whiskey meia vazia. Havia uma jukebox old school e no espaço entre as mesas e o balcão estava improvisada uma pista de dança onde dançavam mulheres em trajes mínimos. Por fim, a um canto, no caminho para o WC havia uma mesa de snooker onde um grupo de típicos mânfios jogava a dinheiro. O empregado de balcão era um africano largo, careca, nos seus cinquenta anos.
    Olhou em redor como que à procura de algo ou alguém. Junto à mesa de snooker o seu olhar cruzou-se com o de uma jovem belíssima. Parecia já bastante alcoolizada pelo ar esgazeado com que o fitou por instantes. Sorriu-lhe e bebeu mais um golo da sua cerveja. Ele não esboçou qualquer reacção. Caminhou até ao balcão e sentou-se. Pediu um bloody mary. Na televisão, a um canto do bar, estava a dar o resumo alargado de um jogo qualquer de futebol. O gordo de barbas comentou qualquer coisa consigo. Ignorou o comentário e nem olhou para ele. Voltou a passar os olhos pelo bar, fitando em particular o grupo das miúdas que dançavam. A maioria delas terminaria a noite na cama de algum daqueles bêbedos. « Putas idiotas » pensou. Quando voltou a atenção para o jogo de snooker reparou que a jovem continuava a fitá-lo. Estava encostada à mesa, de costas voltadas para o jogo, ignorando-o completamente e parecendo mais interessada no nosso amigo. Subitamente, começou a caminhar na sua direcção, ziguezagueando durante o percurso. Ele virou-se para o gordo e ofereceu-lhe o bloody mary.
    - Obrigado, amigo! Mas, nem lhe tocou...
    - Não se preocupe. Já tenho que chegue para esta noite...
    Dali a cinco minutos estavam fora do bar. Ela agarrada ao braço dele, sem forças para caminhar sobre os seus próprios pés. - Fofo! - sorria-lhe ela. Ele ignorava-a e continuava concentrado no seu percurso. Andaram um bom bocado, gradualmente afastando-se do centro da cidade, em direcção ao parque florestal. Ela ia falando sozinha, balbuciando todo o tipo de baboseiras e soltando esporádicamente uma gargalhada mais alta. O facto de ele não lhe dar resposta não a incomodava, o seu cérebro não chegava para tanto na altura.
    Quando chegaram ao parque ela quis sentar-se para descansar um pouco. Sentia-se tonta. Quando ele lhe disse que estava quase, parou bruscamente e num espasmo repentino, vomitou-lhe no braço. Apesar de não o demonstrar, Miguel enfureceu-se. Apetecia-lhe castigá-la por tal insolência e acto irresponsável. « Raça deprimente! » disse para si mesmo. Sabia que bastava um estalo para a desfazer em pedaços. Mas não. Naquela noite tinha planos diferentes para a miúda. Despiu o casaco e atirou-o para um canto. Pegou-lhe pelo braço e enfiaram pelo meio das árvores. Chegados a um local mais escuro, longe das luzes artificiais dos postes e camuflados por arbustos altos, largou-a e ela caiu de joelhos no chão. A sua sobriedade era nula e não deveria durar muito mais tempo acordada. Tinha limpado a boca ao vestido e nessa altura ele reparou que ela não trazia cuecas por baixo. Perguntou-lhe se estava melhor - não que realmente se importasse - e ela acenou que sim. Foi então que, do nada, ela se aproximou dele, e ainda de joelhos, lhe começou a desabotoar as calças. Miguel parou-a e agarrou-lhe suavemente o rosto.
    - Não querida. Não estamos aqui para isso.
    Ela não entendia. Ergueu-a até ficar de pé e sorriu. Então, num movimento brusco virou-a de costas e encostou-a a um dos troncos, prendendo-a com o braço no seu pescoço. Ela ainda não entendia o que se estava a passar. Rasgou-lhe o vestido pelas costas e ela ficou desnudada. Por esta altura a sua nova amiga parecia já ter entendido tudo.
    - Gostas de ser bruto, fofo!? Não faz mal... Faz de mim o que quiseres!
    Ela não precisava de pedir. Em boa sinceridade, o seu papel em toda esta história era de uma irrelevância total. O seu destino estava traçado e já não havia volta a dar. E a sua voz começava a irritá-lo, por isso, quanto mais depressa acabasse com tudo mais rapidamente voltaria à sua vida. Puxou-lhe os cabelos para o lado, encostou o seu corpo musculado ao dela e abriu a boca, cravando-lhe os caninos afiados na pele, perfurando-lhe a tenra carne do pescoço.

    Acabou num segundo. Não tinha doído nada. Deixou o corpo dela caído no local, seria apenas mais uma vítima de violação, fruto do crime e das noites cada vez mais perigosas da cidade. Ninguém pensaria em fábulas e monstros. E ele, estava saciado por esta noite. Podia voltar para trás, pegar no casaco de cabedal que tanto estimava e regressar a casa.
     Limpou a boca. E mergulhou de novo na noite. A sua eterna aliada.

   1 comments

Smokey
April 14, 2008   07:54 PM PDT
 
Os teus contos fazem-me lembrar sin city.

Leave a Comment:

Name


Homepage (optional)


Comments